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A caótica favela vertical que deu origem a um bucólico parque em Hong Kong

Felipe van Deursen

11/03/2020 04h00

Cidade Murada de Kowloon, quando ainda estava de pé (flickr)

22º19'N, 114º11'L
Parque da Cidade Murada de Kowloon
Hong Kong, Região Administrativa Especial da China

Ela já apareceu, ou pelo menos inspirou o cenário, em uma penca de livros, jogos e filmes, de Supremacia Bourne (os romances) a Batman Begins (o filme mesmo), de Street Fighter (o anime) a Call of Duty (os jogos mesmo). Isso sem contar o clássico da Sessão Porrada O Grande Dragão Branco, com Jean-Claude van Damme.

A Cidade Murada de Kowloon era a imagem a que muitos artistas recorriam quando queriam inspiração para uma megafavela superpovoada com pouquíssima luz natural e doses bíblicas de prostituição, brigas de gangues e consumo de drogas. Uma visão caótica de emaranhados quase indecifráveis de cabos elétricos e tubulações, fachadas luminosas que sofriam para trespassar as nuvens de fumaça fabris e corredores labirínticos onde só os iniciados se aventuravam. Quase um Blade Runner da vida real, esse frankenstein urbanístico foi um efeito colateral da complicada e intrigante história de Hong Kong.

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Até 1800, essa pequena ilha era um mero refúgio pesqueiro controlado pela China. As coisas começaram a esquentar quando mercadores britânicos passaram a comercializar ilegalmente ópio da Índia e compravam bens chineses, como chá, porcelana e seda. O ópio, suco leitoso recolhido do bulbo da papoula, era a mais importante droga desde a Antiguidade, segundo o historiador Henrique Carneiro, especialista no assunto.

Os traficantes ingleses acabaram estimulando o surgimento de um mercado de dependentes químicos. Em 1839, a China tinha 2 milhões de viciados em ópio. Naquele ano, o país tentou suprimir o comércio ilegal, provocando uma guerra com os ingleses. Foi um fracasso. A Primeira Guerra do Ópio terminou com 20 mil baixas chinesas, 520 britânicas e a transferência da ilha de Hong Kong para Londres.

Maquete do antigo forte de Kowloon (flickr)

A China pôde manter um pequeno forte que havia construído na área continental, no começo do século. Para evitar uma maior influência europeia, ela incrementou a obra, erguendo uma formidável muralha. Em 1854, em meio à Rebelião Taiping, a fortificação foi brevemente tomada pelos revoltosos. Essa rebelião foi um movimento messiânico radical cristão que proibia um monte de coisas (ópio entre elas) e instaurou um Estado paralelo no sul da China. Os conflitos entre seus líderes e a guerra contra a dinastia Qing puseram fim à revolta, após 14 anos de caos e carnificina: foram absurdos 20 milhões de mortos, mais do que a Primeira Guerra Mundial.

Em 1860, após a Segunda Guerra do Ópio e mais uma enorme derrota chinesa, os britânicos tomaram posse de outra área de Hong Kong. Por fim, em 1898, o Reino Unido assumiu o controle dos chamados Novos Territórios, em um acordo que duraria 99 anos. O forte, agora uma pequena cidade murada de 700 habitantes, permaneceu com os chineses, que poderiam manter oficiais lá dentro, desde que não interferissem no lado britânico de Hong Kong. Na prática, aquilo virou um enclave chinês.

Cidade Murada de Kowloon, 1989 (wikicommons)

A China mergulhou em uma nova guerra civil nos anos 1910, entre monarquistas e republicanos. Sem a presença Qing a partir de 1912, a cidade murada caiu no colo dos britânicos, que pouco fizeram nas décadas seguintes. Ela virou uma espécie de ponto turístico alternativo, a "cidade chinesa" para os europeus curiosos que desembarcavam aos montes para estudar e trabalhar em Hong Kong, que a essa época já era uma fervilhante possessão britânica no Oriente.

A decadência se apropriou do antigo forte, como era de se esperar, e em 1933 as autoridades anunciaram um plano de demolição e remoção das famílias para outro lugar. Mas aí, em 1937, vieram o Império Japonês e a Segunda Guerra Sino-Japonesa, que quatro depois misturou-se ao teatro global da Segunda Guerra.

Os japoneses atacaram Hong Kong e destruíram a muralha, usando suas pedras para a ampliação de um aeroporto. A cidade, porém, resistiu às investidas, e acabou recebendo milhares de refugiados chineses.

Comunistas e nacionalistas chineses voltaram a se encrencar após 1945, e Hong Kong continuou sendo um refúgio para quem queria escapar do acúmulo de guerras que eram suas vidas. Em 1947, 2 mil pessoas ocupavam a cidade murada, e no ano seguinte os britânicos desistiram de expulsá-los. Era o início da ocupação desordenada e ignorada pelas políticas públicas.

Um incêndio devastou 2,5 mil cabanas, deixando 17 mil pessoas desabrigadas, em 1950. O desastre evidenciou a necessidade de mais segurança na área, mas a situação geopolítica da cidade murada, um enclave chinês paupérrimo cercado por uma enriquecida colônia britânica, não facilitava as coisas.

Sobre as cinzas da favela, novas casas foram erguidas para os recém-chegados, alimentando rumores de que o incêndio foi premeditado. Uma história bastante conhecida no Brasil.

Cidade Murada de Kowloon, 1972 (wikicommons)

Nas décadas de 1950 e 60, a cidade murada viu a explosão de crimes e do consumo de drogas. Policiais só se aventuravam lá dentro em grupos bastante armados. A virada de jogo começou em 1973, quando mais de 3,5 mil batidas resultaram em 2,5 mil prisões e 1.800 quilos de drogas apreendidos. A opinião pública da cidade murada apoiou a presença maior da polícia, e na década seguinte as taxas de crime já eram consideradas sob controle.

Outro ponto que teve crescimento expressivo nos anos 1960 foi a população. Estruturas modulares brotavam feito cogumelos umas sobre as outras sem nenhuma cerimônia. Cerca de 33 mil pessoas espremiam-se em 300 prédios, que ocupavam 28 mil metros quadrados, ou a área de um quarteirão/quadra. Isso significa uma densidade demográfica 26 vezes maior do que a da paulistana Paraisópolis, o bairro mais densamente povoado do Brasil.

Para piorar a situação, na virada para a década de 1980, as construções não podiam passar de 14 andares, devido à proximidade do aeroporto Kai Tak. Se lá embaixo você tinha pouca luminosidade, porque as construções aglomeravam-se a ponto de criar sombras eternas, lá em cima você era atormentado pela alta poluição sonora do tráfego aéreo.

Maquete da Cidade Murada de Kowloon evidencia o aperto dos moradores. (flickr)

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Não custa destacar o óbvio que a maioria dos habitantes da cidade murada não eram criminosos, e que ela funcionava à sua maneira, ignorada pelo Estado e pela sociedade civil, com redes de pequenas fábricas, negócios informais, escolas, médicos e dentistas sem licença e outros profissionais que ajudavam a organizar e a melhorar o dia a dia de seus habitantes.

Mas o bairro estava condenado. Em 1984, as autoridades chinesas e britânicas entraram em acordo e decidiram demoli-lo. O governo distribuiu uma compensação financeira, o que não agradou a todos os moradores. Muitos não ficaram felizes, alguns foram desalojados forçadamente.

A demolição começou para valer somente em 1993, quatro anos antes de Hong Kong voltar ao domínio chinês. Em 1994, as ruínas deram lugar à construção do Parque da Cidade Murada de Kowloon. A nova área verde tem jardins inspirados na dinastia Qing, algumas construções restauradas dos tempos do antigo forte e ruas batizadas com os antigos nomes da cidade murada.

 

Ruínas de Kowloon (Crédito: Getty Images)

Parque Kowloon (Crédito: Getty Images)

Passado mais de um quarto de século de sua demolição, a cidade murada ganhou certo tom mítico, dada sua história, tão ligada a Hong Kong, e, querendo ou não, sua arquitetura esquizofrenicamente única. Mas, para muita gente, especialmente a força policial, a demolição era inevitável e o bairro não merece sentimentos nostálgicos.

"Se você fosse um policial honesto, aquilo era só sujeira e imundície", disse um policial, que trabalhou na área nos anos 1970, ao jornal de Hong Kong South China Morning Post. "Se você fosse corrupto, não havia muito dinheiro para ganhar, porque só havia crimes pequenos."

Kong Kee, um quadrinista local e mais um artista inspirado pela cidade murada, declarou ao jornal que muito de Kowloon sobrevive na metrópole, repleta de conjuntos habitacionais amontoados (como o "Edifício Monstro" de Quarry Bay) e com as típicas dificuldade de um lugar densamente povoado. "Se você ampliar a cidade murada, ela é quase como Hong Kong hoje".

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.