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A megaponte que atravessa a Malásia para ligar Brunei a… Brunei

Felipe van Deursen

23/08/2020 04h00

 

(Crédito: iStock)

4º53'N, 115º05'L
Ponte Sultão Haji Omar Ali Saifuddien
Labu, Temburong, Brunei

Existe um lugar no mundo que, apesar de ter lá seu histórico de corrupção, consegue inaugurar obras públicas antes do combinado. Ou quase isso.

Em Brunei, a ponte Temburong estava prevista para ser entregue no fim de 2019. Houve um pequeno atraso, mas aí a pandemia bateu às portas do pequenino reino asiático e o governo resolveu abrir a grande obra ao público em 17 de março de 2020, antes da nova data acertada. No dia 16, o país proibira seus cidadãos de sair do território, a fim de tentar conter o coronavírus.

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E o que uma ponte tem a ver com tudo isso? Porque a Temburong é uma ponte de fronteira, e uma ponte de fronteira especial, já que ela conecta Brunei a… Brunei.

Temburong é um exclave, ou seja, um pedaço do país separado geograficamente do território. No caso, o que divide Brunei é Limbang, um distrito de Sarawak, o maior estado da Malásia. (Sim, está chatinho para visualizar, mas é por isso que todos os posts deste blog vêm acompanhados de um mapa no fim do texto. Use o mouse para diminuir e aumentar o zoom ou, se estiver no celular, coloque as pontas dos dedos para trabalhar.)  

A ponte surgiu para conectar as duas partes do país, passando por cima desse pedacinho da Malásia. Antes dela, os habitantes de Temburong só conseguiam chegar à capital, Bandar Seri Begawan, em uma viagem de 45 minutos de barco cruzando a baía de Brunei, ou por terra, em duas horas, passando por quatro postos de imigração. Muitos faziam o trajeto todos os dias. Com as restrições impostas pela covid-19, ficariam completamente isolados. 

Ponte Temburong em obras, em 2019 (foto: Peter L. Higgs/wikicommons)

A construção da ponte, que tem 30 km de extensão (mais que o dobro da Rio-Niterói), começou em 2014. As obras ficaram a cargo da sul-coreana Daelim e da estatal chinesa CSCEC. Seis anos e US$ 1,2 bilhão depois, ela recebeu, mês passado, o nome Sultão Haji Omar Ali Saifuddien, em homenagem ao pai do atual sultão, Hassanal Bolkiah. Bolkiah sucedeu ao pai em 1967, o que faz dele o mais longevo monarca absolutista do mundo.

A ponte Temburong promete reduzir a viagem entre as duas porções de Brunei a meros 20 minutos. Além disso, ela pode se tornar um fator estimulante ao turismo no sultanato.

 As florestas cobrem 75% da área do país. Em Temburong, isso é ainda mais evidente. É uma terra verdejante, com macacos-narigudos e cachoeiras aos montes. Como Brunei tem fartura em petróleo e gás natural, o país não sentiu a mesma pressão que sua vizinha maior. Tanto a Malásia quanto a Indonésia, que ocupa a maior parte da ilha de Bornéu, vêm devastando florestas em prol de um agronegócio corrosivo.

(Crédito: iStock)

Bornéu é um paraíso natural. A árvore tropical mais alta do mundo fica lá. É a terra dos orangotangos, primatas que só habitam essa ilha (além de uma pequena região de Sumatra).

Mas as grandes Indonésia e Malásia vêm destruindo suas florestas para deixar "passar a boiada" do óleo de palma. Brunei, por ser rico em fontes não renováveis de energia, não precisou apelar para isso. Tão rico, aliás, que o país tem um dos maiores PIBs per capita do mundo. 

Tanto dinheiro abriu brecha para alguns escândalos internacionais. Em 2000, o irmão caçula do sultão foi processado pelo próprio soberano por ter causado perdas multibilionárias, que levaram a cortes de investimentos estatais e a uma brutal redução do patrimônio de Bolkiah. O sultão, que já chegou a ser considerado o homem mais rico do mundo, é, hoje, mais humilde, com um cofre estimado em meros US$ 20 bilhões.

Uma enorme ponte invadindo florestas selvagens é quase sempre uma ameaça à natureza. ONGs locais já estão de olho no impacto, segundo a CNN americanamas se espera que o máximo possível seja preservado, pois o ecoturismo deverá ser o grande trunfo do país, especialmente em tempos de commodities baratas. Ao fazer menos dinheiro com petróleo e gás, Brunei precisará dos visitantes internacionais. 

 

(Crédito: iStock)

UMA ANTIGA POTÊNCIA

A história antiga de Brunei tem boa parte baseada em especulação e relatos de terceiros. Pouca coisa escrita. Sabe-se que por volta do século 15 surgiu o Reino Bruneano, que se estabeleceu com a islamização local. Até o fim do século 17, ele dominou toda ou a maior parte de Bornéu, além de outras ilhas, até o sul das atuais Filipinas.

Depois, com a chegada dos espanhóis e dos britânicos, o sultanato perdeu guerras e poder. No século 19, a decadência se acelerou e o sultões cederam territórios aos chamados "rajás brancos", que os ajudaram a lutar contra piratas e a conter revoltas populares. 


Perdas territoriais de Brunei (crédito: Night Lantern, Creative Commons)


James Brooke, o primeiro rajá branco, foi um aventureiro inglês que ganhou status de chefe de Estado ao ser reconhecido como monarca de Sarawak. Seus sucessores ampliaram a área do novo país às custas de Brunei, que acabou sendo reduzido aos atuais dois pedaços de terra que, juntos, são do tamanho do Distrito Federal.

Em 1888, Brunei e Sarawak viraram protetorados britânicos. Na Segunda Guerra Mundial, o Japão invadiu e anexou os territórios, de onde só saiu derrotado, em 1945.  

Armas guardadas, paz assinada, a aventura de Sarawak e seus rajás brancos foi extinta e o território voltou a ser colônia inglesa. Em 1963, Sarawak, Bornéu do Norte e Cingapura uniram-se na recém-independente Federação Malaia, formando a Malásia (dois anos depois, Cingapura pulou fora e saiu em carreira solo no jogo dos países da Terra).

(Crédito: iStock)

Já Brunei seguiu dominado por Londres, e ainda sob a ameaça de anexação à Malásia. A autonomia interna veio em 1971. Independência para valer, só em 1984. A rainha Elizabeth II já se aproximava dos 60 anos e via, pela 48ª e última vez desde que assumira o trono, o Reino Unido perder mais uma possessão.

Agora, Brunei quer se tornar uma potência do ecoturismo. A ponte para se chegar lá o país já tem.

 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.