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O dia em que um erro do Google Maps quase provocou uma guerra

Felipe van Deursen

22/11/2020 04h00

10º56'N, 83º41'O
Ilha Portillos
Ilha Calero, Limón, Costa Rica

Já dizia a Dona Máxima, "novas tecnologias, novos desafios, novos problemas". Na América Central, isso foi posto em prática de modo chacrinhesco há 10 anos. O Google Maps não chegou para explicar, chegou para confundir.

No dia 8 de outubro de 2010, enquanto o mundo acompanhava os capítulos finais da emocionante saga dos mineiros chilenos na mina de Copiapó, o governo da Nicarágua iniciou um processo de dragagem por 33 km ao longo do San Juan, rio que deságua no Mar do Caribe e determina boa parte da fronteira sul do país com a Costa Rica.

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No século 19, Nicarágua e Costa Rica integravam a República Federal da América Central, um país que existiu por 18 anos, na esteira dos processos de independência nas Américas. Em 1838, Nicarágua e Costa Rica deixaram a federação e, 20 anos depois, determinaram suas fronteiras em um acordo. O texto cravou que as águas do San Juan, que nasce no lago Nicarágua, pertencem ao nicaraguenses. Mas os costarriquenhos tinham direito de usá-las comercialmente em alguns trechos.

A fronteira seguia o curso do rio e chegava a uma lagoa na ilha Portillos, localizada ao norte da maior ilha da Costa Rica, a Calero, antes de desembocar no mar. Ao longo de décadas, o delta do San Juan mudou a geografia local. Para os nicaraguenses, uma estreita faixa de praia acabou separada do resto do território, dentro do país vizinho. A Costa Rica, por sua vez, não compartilhava da mesma visão.

Fronteira disputada entre Costa Rica e Nicarágua.  (arte: AlexCovarrubias/wikicommons)

Mas, para a Nicarágua, o território era dela, então a obra seguiu. A chefia das operações ficou a cargo de Edén Pastora, um antigo comandante sandinista – o movimento sandinista se baseava na ideologia de Augusto César Sandino, que lutou contra a ocupação da Nicarágua pelos Estados Unidos nos anos 1920 e 30. O sandinismo acabou virando partido e, depois, uma revolução de esquerda. Seu líder, Daniel Ortega, até hoje é protagonista da política nacional, mas as notícias do país, nos últimos anos, são cada vez mais sobre repressão e violência do que qualquer outra vitória popular. 

Rio San Juan, na Nicaragua (Crédito: iStock)

No início das operações, o La Nación, um jornal da Costa Rica, acendeu o alerta. O repórter perguntou a Pastora por que havia 50 soldados nicaraguenses em território costarriquenho. Ele respondeu que estava combatendo o tráfico de drogas e que não, não estava invadindo nada, taqui o Google Maps pra provar.

O governo da Costa Rica não aceitou o argumento, acusou o vizinho de violar sua soberania e disse que a dragagem estava causando danos ecológicos aos pântanos da ilha Calero, que integra uma reserva natural do país. Então, decidiu enviar reforços policiais para a área – a Costa Rica não tem Forças Armadas desde 1948.

Pastora depois negou o que o jornal costarriquenho divulgou e disse que não se baseou no Google Maps, mas naquele acordo do século 19. Apenas usou o mapa digital para simplificar a explanação.

Mas foi isso que ganhou manchetes pelo mundo todo, especialmente porque o mapa do Google estava mesmo errado. A empresa precisou se retratar e corrigir o traçado da fronteira. A história repercutiu tanto que, semanas depois, um novo erro veio à tona: uma pequena ilha espanhola próxima ao Marrocos estava marcada como território do país africano – e o problema é que a ilha é motivo de contenda entre espanhóis e marroquinos há séculos. 

O Google precisou corrigir mais essa. Segue o jogo.

Mas não no rio San Juan.

As tropas nicaraguenses ocupavam a ilha Portillos. Para o governo em Manágua, essa ilha é apenas um promontório de sedimentos localizado dentro dos limites da Nicarágua, então a Costa Rica não tinha que se meter. É o que explica o jornal local La Prensa, que chegou a publicar manchetes como "o governo tico desconhece velhos tratados".

Em entrevista a um outro jornal costarriquenho, Daniel Ortega, então (e até hoje) presidente da Nicarágua, endossou o argumento e disse que a ilha pertence a seu país, que nos séculos 15 e 16 uma grande área era coberta pelo delta e que, como o rio secou nos últimos tempos, a Costa Rica vinha avançando e tomando posse do que não lhe pertencia. Seria essa a razão das obras de dragagem, inclusive: recuperar o fluxo de água do rio que havia no século 19.

Gravura retrata do rio San Juan, no século 19 (Crédito: iStock)

Em novembro daquele ano, a Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu aos dois países que retirassem suas forças e sentassem para resolver a treta. Ortega não quis saber. Em 2011, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) determinou que Nicarágua e Costa Rica parassem de enviar tropas e trabalhadores à área, mas que o governo costarriquenho poderia mandar equipes para analisar o impacto ambiental causado pela derrubada de árvores e o assoreamento.

O caso se desenrolaria nas cortes internacionais, mas tudo favorecia a Costa Rica. Só que Ortega insistia na refrega. Quis manter uma disputa por um pedacinho de terra de pouco valor e que ganhou atenção da imprensa de outros países pelo motivo um tanto patético de ser a "primeira batalha do Google Maps da história". Os rivais não chegaram às vias de fato, mas houve muita rosnada.

Tudo por política, como sempre, sugeriu à época o blog "The Lede", do jornal The New York Times. A revista inglesa The Economist cravou que Ortega estava de olho em um terceiro mandato, driblando a Constituição do país. O embate com o vizinho gerou uma previsível onda nacionalista, e o presidente surfou uma bela onda de popularidade.

Havia outra versão também, a preferida daqueles mais adeptos a teorias conspiratórias e às fake news de anos vindouros. Segundo o diário israelense Haaretz, o imbróglio fronteiriço era o primeiro passo da ousada construção de um Canal da Nicarágua, que poderia destronar seu semelhante no Panamá e seria financiado por uma tríade de inimigos de Israel: a própria Nicarágua, que recentemente havia cortado relações com o país, além de Irã e Venezuela.

(Crédito: iStock)

E DEPOIS?

Ortega acabou reeleito em 2011. Em 2014, uma emenda constitucional aboliu a limitação de candidaturas consecutivas à presidência e em 2016 ele foi eleito mais uma vez. Já o projeto do Canal da Nicarágua não era boataria, pelo menos não por um tempo e não com aqueles "temíveis" parceiros. Ele foi apresentado em 2013 e seria bancado por uma empresa da China. Choveram críticas ao devastador impacto ambiental que a obra causaria e, com outros problemas, como uma crise na bolsa chinesa em 2015 e 2016, o projeto acabou cancelado.

Quanto à disputa na fronteira, ela se desdobrou na construção de uma rodovia do lado costarriquenho. Foi a vez de a Nicarágua argumentar que a obra afetaria sua regiões alagadiças e parques nacionais. San José, por sua vez, falou que a construção ajudaria a manter sandinistas longe e levaria eletricidade a comunidades remotas.

Em 2016, o governo da Costa Rica estimou um pagamento de US$ 6,7 milhões pelos danos causados. No fim daquele ano, já confortavelmente reeleito, Ortega concordou em pagar. Faltava só acertar o valor.

A Costa Rica voltou à CIJ em 2017, que determinou, no ano seguinte, um valor bem menor a ser pago: US$ 378 mil. Além disso, ela definiu a fronteira. A Nicarágua ficaria com a lagoa Los Portillos e sua faixa de praia, enquanto a Costa Rica ficaria com todo o resto da ilha Portillos.

Quanto ao Google Maps, até hoje ele precisa lidar com os mesmos detalhes geopolíticos que empresas muito mais tradicionais (ou arcaicas, se você não tiver nenhuma sensibilidade para artefatos analógicos). Assim como a fabricante de globos terrestres Replogle, no mercado desde os anos 1930, o Google Maps também precisa mudar alguns nomes de lugares, a depender do cliente. O Golfo Pérsico vira Golfo Árabe se você estiver na Arábia Saudita e o Mar do Japão é chamado de Mar do Leste na Coreia, por exemplo. 

 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.