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Terra à vista!

"Roque Santeiro" batiza mercado símbolo de abandono em Angola

Felipe van Deursen

23/05/2021 04h00

O mercado de Roque Santeiro, ainda em Luanda (Crédito: Getty Images)

8º42'S, 13º26'L
Mercado de Panguila
Dande, Bengo, Angola

Panguila é uma zona residencial em uma província vizinha de Luanda, a grande capital angolana. A maior parte dos habitantes do Panguila chegou transferida de um extinto bairro chamado Favela. Mudou o nome, não mudaram os problemas. Alguns setores do Panguila são tão precários e desamparados pelo Estado, com luz e esgoto em falta e crimes em excesso, que a população se refere ao local como "cemitério dos vivos".

Na década passada, um enorme mercado de rua também foi transferido de Luanda para o Panguila. O Roque Santeiro, "talvez a primeira manifestação civil da sociedade luandense, mortinha por sobreviver às guerras e à ideologia asfixiante", foi removido da capital "por razões urbanísticas megalómanas". As aspas são do grande jornalista luandense Ferreira Fernandes, que também explica o nome do mercado: "Chamou-se Roque Santeiro porque nessa altura a célebre telenovela estava a sair na televisão – como se dizia 'está a sair batata' quando acontecia elas aparecerem nas lojas" (vale a leitura da reportagem de Fernandes sobre mercados angolanos publicada em 2018 no jornal português Diário de Notícias.)

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Corriam os anos 1980, sanguinários e caóticos para Angola, mergulhada na guerra civil desde a independência, em 1975. O embate se dava entre a União Nacional para Independência Total de Angola (Unita), grupo que nasceu maoísta mas depois virou anticomunista e apoiado pelo regime do apartheid sul-africano, e o Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), marxista, amparado pela União Soviética e instalado no poder.

(Crédito: Getty Images)

Para milhões de habitantes do interior, migrar para a capital era uma tentativa de sobrevivência, pois lá havia mais tropas do governo, chances de trabalho e redes de apoio. Com isso, a população de Luanda cresceu dez vezes entre 1974 e 2010. Hoje, é a cidade com o crescimento populacional mais acelerado da África: vivem na região metropolitana 8,6 milhões de pessoas.

Terminada a guerra em 2002, o país vivenciou um boom do petróleo que – velha história – beneficiou elites e estimulou a corrupção. Luanda virou uma das cidades mais caras do mundo e os pobres que se virassem. Daí a popularidade de lugares como o Roque Santeiro, onde 200 mil vendedores comercializavam de palitos a automóveis a preços muito mais acessíveis, segundo a agência Reuters.

Por isso vendedores e frequentadores criticaram a transferência do Roque Santeiro para o Panguila, no município do Dande, 18 km ao norte da capital. Afinal, a fórmula de sucesso de um mercado popular leva em conta o lugar onde ele está instalado, que precisa ser acessível, central. O Roque Santeiro ficava no Sambizanga, um bairro pobre e grande de Luanda. (neste vídeo do jornal português Público, o rapper Sacerdote, nascido no bairro e filho de uma vendedora do Roque Santeiro, mostra sua realidade). Bem diferente da relativa lonjura do Panguila. Em 2018, o site angolano Novo Jornal noticiou o que já era esperado: "Mercado do Panguila às moscas".

CARCAÇAS FLUTUANTES

Não muito longe do fracassado mercado fica um outro cenário de abandono. Mas aqui a falta de vida criou uma beleza solitária, decadente e enferrujada: o cemitério de navios da praia de Santiago.

À primeira vista, o aspecto geral é pós-apocalíptico. Dezenas de embarcações abandonadas que o tempo e o salitre vêm reduzindo a esqueletos náuticos. A maior delas é o Joaquim Kapango, cargueiro da marinha mercante angolana batizado em homenagem a um herói da independência. São 341 pés (104 m) de comprimento se impondo à praia, encalhados há cerca de 30 anos na história do Dande.

Há também um petroleiro e navios menores, e todos fazem parte do cotidiano dos moradores do bairro, Sarico. No começo do século, o governo tentou regularizar a situação, mas pouco mudou. As embarcações são pano de fundo para pescadores artesanais e playground para crianças, além de fonte de sucata para incrementar os ganhos domésticos. "Fazíamos brincadeiras, subíamos ao navio, tirávamos os pássaros e levamos alumínio, para termos alguns valores", lembra um pescador em entrevista à agência de notícias Lusa.

A origem do cemitério é incerta. Há quem diga que eles estavam abandonados no porto de Luanda e depois foram largados em Santiago. Outras versões, mais rebuscadas, contam que alguns barcos serviram para abastecer de armas a Guerra Civil, e em seguida eram propositadamente encalhados na praia. Quer o cemitério tenha surgido nos anos 1960 ou mais tarde, o fato é que essas carcaças foram largadas na praia ou chegaram pela maré, abandonadas no mar.

Hoje, o passeio bate-volta a partir de Luanda é um dos mais divulgados por agências de turismo angolanas. Se isso um dia servir para dinamizar a economia local, talvez os navios fantasmas ajudem a salvar os outros cemitérios do Panguila, o do mercado e o dos vivos.

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.