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Pirâmide soterrada em cidade maia intriga arqueólogos: ela não é maia

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Felipe van Deursen

20/06/2021 04h00

(Crédito: iStock)

17º13'N, 89º37'O
Parque Nacional Tikal
Flores, El Petén, Guatemala

Tikal é talvez a maior atração turística da Guatemala, acostumada a receber boa parte dos 2,5 milhões de visitantes estrangeiros que chegavam anualmente ao país antes da pandemia. Turistas em excesso já são realidade em destinos como Lanquín, conhecido por suas cavernas e piscinas naturais.

Mas naquele 16 de janeiro de 378 d.C., o turismo destrutivo, digamos assim, atingiu outros níveis. O rei estava morto. E os visitantes instalaram, no trono de Tikal, um dos seus.

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(Crédito: iStock)

Novos estudos sugerem que o que aconteceu em Tikal no século 4 não foi uma invasão, evento tão banal na história da humanidade. Mas algo mais sutil e sorrateiro.

No primeiro milênio da nossa era, Teotihuacan, no atual México, era uma das maiores metrópoles do mundo e a maior cidade daquilo que chamaríamos de Américas. Sua influência na região é bem documentada. Uma das grandes demonstrações de seu poder foi, justamente, a conquista de Tikal, que à época era um dos centros da civilização maia.

Em 2018, pesquisadores usaram equipamentos com lidar, tecnologia que, por meio de laser pulsado, faz uma espécie de escaneamento 3D de grandes superfícies. Assim, descobriram toda uma rede de vias na selva que mostra como a cidade era muito mais complexa do que as ruínas visíveis hoje fazem crer. Na parte sul de Tikal, o que antes era apenas um morro escondia, na verdade, muito mais.

(Crédito: Wild Blue Media/Channel 4/National Geographic)

A colina verdejante camuflava uma pirâmide e um pátio. Faltava descobrir o que isso significava.

Quando os arqueólogos analisaram as imagens, constataram que não se tratava de uma pirâmide qualquer, mas de uma versão menor da Cidadela de Teotihuacan. Ou seja, aquilo seria, possivelmente, um posto avançado, uma embaixada de Teotihuacan em Tikal, a mais de 1.000 km de distância.

Eles levantaram essa hipótese porque a pirâmide é mais antiga do que a conquista da cidade. A réplica da Cidadela foi erguida por volta do ano 300, 78 anos antes do golpe que derrubou o rei maia e instalou um governante teotihuacano no poder. Se tivesse sido construída depois, seria apenas um sinal claro de que Teotihuacan estava dando as cartas – algo que a ciência já sabia.

Mas ela é de antes. Daí o mistério.

Nas escavações, o time de Román Ramírez, da Fundação para o Patrimônio Cultural e Natural Maia, descobriu armas, pedaços de queimadores de incenso, esculturas e oferendas funerárias. Tudo com motivos de Teotihuacan. As armas eram de obsidiana verde, típicas da cidade, os queimadores eram iguais aos usados em cerimônias, as esculturas eram do deus da chuva de Teotihuacan.

Praticamente um bairro teotihuacano encravado na cidade maia. Nem nossos emigrantes com saudade de casa em um Brazilian Day da vida se sentiriam tão acolhidos assim.

Ainda assim, não é possível cravar se quem ergueu a estrutura foram cidadãos de Teotihuacan ou apenas pessoas muito ligadas a sua cultura. Os arqueólogos estão analisando isótopos nas sepulturas, que podem indicar se alguém viveu em lugares diferentes ao longo da vida – como ter migrado de Teotihuacan para Tikal.

Também não se sabe o mais importante: que aconteceu para que as relações entre os povos se deteriorassem a esse ponto? O que levou a diplomacia ser suprimida pela guerra? Faltam várias lacunas nessa história, que já tem quase tantas viradas de enredo quanto um episódio de Billions ou de Lupin.

O apelo de uma construção de uma cultura qualquer encravado no coração de outra é inegável. O último jogo de Lara Croft explora isso: em Shadow of the Tomb Raider (2018), ela investiga relíquias maias escondidas na mítica cidade inca de Paititi.

Apesar de conquistada, Tikal não virou uma colônia propriamente dita de Teotihuacan, que seguiu expandindo seu arco de influência, conquistando outras cidades até seguir o curso inevitável da história e virar passado, por volta do século 6. Já a cultura maia prosperou e ainda teve um bom tempo de bonança, propiciada, entre outros avanços, por um sofisticado sistema de filtragem de água potável (outra descoberta recente). Ela só colapsou no século 9, por causa da superpopulação e do fracasso agrário, provavelmente.

Expedições redescobriram as ruínas de Tikal no século 19 e a partir dos anos 1950 escavações e restaurações levaram à criação de um parque. Tikal, assim como a hoje mexicana Teotihuacan, virou grande destino turístico, patrimônio da Unesco, locação de filmes de Hollywood, estampa na moeda nacional. No pós-pandemia, aguarda novos invasores: turistas, de preferência pacificados – e imunizados.

 

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.