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Sambuca, a cidade milenar na Sicília que está vendendo casas a 1 euro

Felipe van Deursen

2008-02-20T19:12:11

08/02/2019 12h11

Sambuca, na Itália (foto: iStock)

37º39'N, 13º6'L
Sambuca di Sicilia
Sicília, Itália

Você sabe que uma ação da prefeitura de uma cidade minúscula deu certo quando ela vai parar até no verbete da Wikipedia sobre o município. Isso ocorreu com a até então desconhecida Sambuca di Sicilia, que ficou famosa no mundo todo ao anunciar que estava vendendo propriedades a 1 euro. A proposta é de 2018, mas ganhou evidência em janeiro deste ano, quando um programa de TV mostrou a inusitada oportunidade (ou roubada?) imobiliária.

Na verdade, são leilões em que o lance inicial é de 1 euro (o preço de um café expresso, lembram os locais, como se precisassem enaltecer ainda mais o valor). Se essas propriedades serão mesmo adquiridas por preços tão irrisórios é outra história. Fora que são casas carcomidas por décadas de abandono, que precisam de uma bela restauração. Pouco importa, manchetes de diversos países já estavam ganhas.

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A prefeitura disse ter recebido mais de 300 telefonemas e 94 mil e-mails, noticiou o Guardian. Gente não só da Itália, mas deoutros lugares, pegou um voo até Palermo para conhecer o local. Até o Verissimo ficou com saudade da Sicília e falou do caso recentemente em sua coluna no Estadão.  

Chiesa del Carmine, Sambuca di Sicilia. Foto: Mboesch

Sambuca é uma cidade de cerca de 5 mil almas no oeste da maior ilha do Mediterrâneo. Já foram 9 mil, mas, assim como em muitas outras localidades do sul da Itália, as pessoas a abandonaram à procura de emprego em outras paisagens.

Além da economia decadente, a natureza contribuiu. Em 1968, o Terremoto de Belice, um vale ali pertinho, deixou 231 mortos, cerca de 800 feridos e 100 mil desabrigados. Cidades inteiras foram dizimadas. Outras, como Sambuca, sofreram sérios danos. A Chiesa Madre, principal igreja local, ficou tão detonada que precisou fechar as portas.

A uma hora de carro da capital siciliana, Sambuca está em uma reserva natural, no alto de um morro, cercada de montanhas e bosques. Apesar da beleza, o turismo não dá conta do recado, e a cidade definha há décadas. Até 400 propriedades abandonadas podem ser postas à venda na ousada iniciativa da prefeitura. A maioria é do século 19 e fica no centro histórico.

E haja história.

Origem árabe

Sambuca já foi uma localidade pujante. Quando pensamos em árabes na Europa logo lembramos da Espanha, do Emirado de Córdoba, de Granada. Mas eles também conquistaram outras partes do Mediterrâneo. Em 830, estabeleceram o Emirado da Sicília, que também incluía a ilha de Malta. Sambuca, fundada por gregos, ganhou com os árabes importância comercial.

O Estado sobreviveu por 260 anos, mas os muçulmanos foram maioria na Sicília até o começo do século 13. Esses 400 anos de predomínio do Islã deixou uma rica marca na região, visível até hoje.

Os árabes desenvolveram as técnicas de irrigação e introduziram as culturas de limão e laranja, cujos aromas viraram um símbolo insular. Tanto que uma espécie é conhecida no Brasil por seu gentílico: o limão-siciliano. A fruta, porém, não é da ilha, veio provavelmente de algum canto da Ásia. O limão-siciliano já era conhecido dos antigos romanos, mas só entrou para valer no cotidiano dos europeus do sul graças à tecnologia árabe.

(foto: iStock)

Outra marca que os árabes deixaram foi o castelo do emir Zabut, no monte Genuardo. A Chiesa Madre foi erguida sobre as ruínas do castelo em cerca de 1420, e Zabut deu seu nome à cidade até 1928, quando Benito Mussolini jogou as raízes árabes do local para debaixo do tapete ao mudá-la de Sambuca Zabut para algo mais italiano e nacionalista, Sambuca di Sicilia.

Eu me perguntei, talvez você esteja se perguntando e o Verissimo também entrou no assunto: a cidade de Sambuca tem alguma coisa a ver com o licor sambuca? Tem, mas o caminho não é tão reto quanto imaginamos. Em se tratando de origem de bebidas, muita coisa é mais nebulosa do que a véspera do bêbado.

Uma das versões para a origem do nome da cidade diz que ele vem do latim sambucus, que quer dizer "sabugueiro". Sementes e flores desse arbusto eram a matéria-prima de um destilado siciliano chamado zammù. Com o tempo, a influência árabe jogou anis na receita, e a plantinha roubou a cena (aliás, todo detrator de anis, mesmo que bem menos barulhento que o detrator do coentro, gosta de falar que anis rouba gosto de tudo). O sabugueiro ficou de lado, mas deixou o nome na bebida.

Pois bem, o zammù entrou no clube das bebidas anisadas do Mediterrâneo, que inclui o rakı, da Turquia, o ouzo, da Grécia, o pastis, da França e, claro, o arak, cuja origem é incerta mas que se tornou uma tradição forte no Líbano. Porém, o zammù é algo pitoresco, feito apenas em Nápoles e pouco conhecido além das cidades com vista para o Etna. A famosa bebida anisada italiana é o sambuca, que passou a ser produzido em escala no século 19, em Civitavecchia, cidade portuária ao norte de Roma.

Sambuca é um licor feito de álcool destilado, anis-estrelado, óleos essenciais, água e açúcar. É muito parecido com o zammù, só que mais doce. É servido puro ou com gelo, o que provoca um efeito branqueador do líquido, visto também no ouzo e no rakı.  Aliás, "acqua e zammù" também é uma dobradinha clássica na Sicília.

Outra forma interessante de beber sambuca é com um grão de café. Uma anedota diz que nos anos da Dolce Vita em Roma, nos bares e café da Via Veneto frequentados por artistas como Marcello Mastroianni e Anita Ekberg, uma brincadeira comum era jogar um grão de café no copo de sambuca de alguém e dizer que uma mosca havia caído no líquido. A piada só não deu mais certo do que a própria combinação. E hoje muita gente pede "sambuca com a mosca". O sucesso é o contraste do doce do licor com o ácido do grão de café. 

Sambuca com "a mosca". (Foto: iStock)

Em janeiro, a Chiesa Madre reabriu as portas, após 50 anos. Mais um motivo para quem estiver disposto a desembolsar alguns euros para tomar zammù, sambuca e, com o troco, comprar uma casinha na Sicília.

Atualização: como Buana alertou nos comentários, faltou um link para quem estiver interessado entrar em contato com a prefeitura. Então lá vai. (mas não, não estamos "torcendo contra")

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.