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Vaquinhas alpinas com coroas de flores. É o festival mais fofo do mundo?

Felipe van Deursen

28/09/2019 04h00

(Crédito: Getty Images)

47º27'N, 12º09'L
Hopfgarten im Brixental
Tirol, Áustria

Todo os anos, entre meados de setembro e começo de outubro, fim do verão e começo do outono no Hemisfério Norte, fazendeiros de regiões alpinas conduzem seus animais de volta dos pastos das montanhas, onde passaram os meses de sol produzindo um fluxo constante de leite transformado em manteiga, iogurte e queijo. Em nenhum país da região a prática é tão comum como na Áustria, especialmente no montanhoso Tirol.

O deslocamento sazonal de um lugar para outro, como de vales para montanhas, em busca de melhores condições em determinadas épocas do ano, é conhecido como transumância. Nos Alpes, esse retorno de mais de 100 mil vacas, cabras e ovelhas é motivo de festa.

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Eis é o almabtrieb, procissão em que os pastores enfeitam orgulhosos os animais e homenageiam os meses bem-sucedidos de produção com muita comida, dança e bebida. O evento atrai não só gente de cidades vizinhas como turistas de longe. 

(Crédito: Getty Images)

Primeiro, as pessoas ouvem o tilintar distante dos sinos. Os sons aumentam e a eles se juntam o ritmo de cascos e o canto iodelei dos fazendeiros. O que era apenas som e expectativa vira também cores, formas e texturas quando o rebanho dobra a última curva e surge na vista.

Guirlandas, colares e outros enfeites deixam esses animais ainda mais cativantes. Se uma ovelha em uma vila alpina já provoca instintos de Felícia em muita gente, imagine uma ovelha em uma vila alpina e toda embonecada.

(Crédito: Getty Images)

Uma vaca ocupa o lugar de honra do grupo, a kranzrind. Ela veste o ornamento mais requintado, fuikl, com arranjos de flores locais, ramos de abeto e detalhes em madeira. Cada coroa dessas pode custar 60 horas de trabalho de um único vaqueiro.

Isso em uma feira cheia de delícias de comer, como kasspatzln, espécie de noodles com queijo alpino derretido e cebola frita, e marend tirolês, uma tábua de frios local. Dançarinos de schuhplattler, aquele famoso sapateado folclórico com batidas de palmas de mãos e nas pernas, animam um ambiente já alcoolicamente alegrado pela cerveja e pelo schnapps. O almabrieb é, grosso modo, uma pequena oktoberfest com vacas.

Detalhe bacana é que cada lugar tem suas próprias tradições, a fim de enaltecer os animais e os caminhos ancestrais que incontáveis gerações percorrem na transumância. Em Schönau, na Alemanha, por exemplo, o gado cruza o lago Königssee em barcos.

Ancestrais mesmo. O termo alpa, no alto-alemão antigo, é o mesmo dos próprios Alpes e significa "pasto sazonal de montanha". O nome da cordilheira, por sua vez, se deve a um termo pré-romano para se referir a montanhas em geral. Há evidências de transumância nos Alpes que datam de 5 mil anos atrás, em plena Era do Bronze.

Neste sábado, 28 de setembro, o almabtrieb acontece na pequena Hopfgarten, mas desde sexta à noite o vilarejo se agita com bandas ao vivo na Noite Tirolesa. Hopfgarten fica a 620 m de altitude, aos pés da montanha Hohe Salve. É conhecida pela hospitalidade rural e não tem turismo de massa. No inverno, suas pistas de esqui ainda atraem esportistas, apesar de os Alpes terem cada vez menos neve, como falei aqui no blog semanas atrás.

Não só a neve, mas os pastos de montanha também perderam espaço para o crescimento da indústria agropecuária e alimentícia no Tirol e nas outras regiões alpinas ao longo dos últimos 100 anos. Terminadas as festas, os bichos seguem para as fazendas nos vales e iniciam um novo ano de produção. O almabtrieb celebra essa herança. É a beleza da rotina.

(Crédito: Getty Images)

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.