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Graças a aquecimento global, cidade mais ao norte do mundo está derretendo

Felipe van Deursen

12/10/2019 04h00

Longyearbyen (Crédito: Getty Images)

78º13'N, 15º37'L
Longyearbyen
Svalbard, território pertencente ao Reino da Noruega

Onde o aquecimento global ataca com mais força, nem os mortos descansam em paz. Acontece quando o pergelissolo, ou permafrost, o solo permanentemente congelado, mostra que nem ele é tão permanente assim.

À medida que rochas e terra descongelam, tudo que está debaixo da superfície tende a subir. Foi o que rolou com as sepulturas de Longyearbyen, cidade de pouco mais de 2 mil habitantes e capital de Svalbard. Segundo moradores locais ouvidos pela agência Reuters, já aconteceu de caixões brotarem do chão, alarmando todos os vivos. O problema ocorre também no Alasca, onde já tem gente fazendo tumbas suspensas enquanto cemitérios viram pântanos.

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A instabilidade de um chão que descongela provoca deslizamentos de terra e avalanches, indestrutíveis para casinhas que foram construídas sem fundação. Incidentes do tipo são cada vez mais comuns, algumas vezes fatais.

Longyearbyen é a cidade com mais de mil habitantes mais setentrional do mundo. Um lugarzinho com quatro meses de sol da meia-noite e três meses de noite polar, com um solo que derrete, provoca avalanches e cospe cadáveres.

O grande causador desse cenário de conto de terror é um monstro muitas vezes invisível, cuja existência já foi provada, comprovada, testamentada, juramentada e escancarada na cara de todos, mas que encontra resistência em seitas negacionistas. Em Longyearbyen, ninguém duvida da realidade do aquecimento global.

Aurora boreal em Longyearbyen (Crédito: Getty Images)

Desde 1970, a temperatura média anual subiu 4ºC em Svalbard. Já a temperatura média do inverno deu um salto de 7ºC, de acordo com um estudo publicado pelo Centro de Serviços Climáticos da Noruega este ano. Até o fim do século, a temperatura média do arquipélago pode subir 10ºC. É só lembrar que a grande meta do Acordo de Paris é limitar o aumento da média global em 1,5ºC para ter noção do que se passa em Svalbard.

A extensão do gelo do Oceano Ártico cai 12% a cada década desde 1979. Essa redução é mais evidente na área do Mar de Barents, onde fica Svalbard.

Com isso, Longyearbyen, que detém desde o século 20 o título de cidade mais setentrional do mundo, é, no século 21, a cidade que está esquentando mais rápido.

A localidade deve seu nome a John Munroe Longyear, industrial americano que em 1906 investiu em minas de carvão na região. O lugar se desenvolveu o suficiente para ser a capital do arquipélago, que em 1920 foi reconhecido como um território norueguês.

Longyearbyen ((Crédito: Getty Images)

Durante a Segunda Guerra, Svalbard permaneceu de lado um bom tempo, apesar de a Noruega ter sido invadida e dominada pelos nazistas. Até que em 1943 navios alemães bombardearam as ilhas e destruíram quase todos os prédios de Longyearbyen.

Na Guerra Fria, os soviéticos mantiveram forte presença em Svalbard, sobretudo com minas de carvão. Foi só a partir da década de 1990 que o território ganhou a atual faceta, focada em ciência e turismo. Svalbard tem universidade, centros de pesquisa e, mais famoso, o Banco Internacional de Sementes, ousado empreendimento que pretende manter a diversidade biológica do planeta.

Mas o turismo não é novidade no arquipélago. Era relativamente comum há pouco mais de um século. O próprio Longyear visitou as ilhas pela primeira vez como turista.

Cabe a pergunta. Haverá turismo daqui a 100 anos em Svalbard?

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.