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Ouro, joias e drogas: a história real da ilha privada da Disney no Caribe

Felipe van Deursen

17/05/2020 04h00

(Crédito: Divulgação)

26º05'N, 77º32'O
Castaway Cay
Ábaco do Sul, Bahamas

Tudo começou um tempo atrás em uma ilha do sol. Em algum dia da década de 1920, um capitão, três exploradores e suas famílias foram acometidos por uma tempestade no mar, que os levou a uma ilhota bahamense, onde acabaram se estabelecendo.

Compunham a trupe o paleontólogo Cecil "Wormy" Chamberlain, reconhecido por ter descoberto um fóssil de um cachalote pré-histórico, e Max Profitt, protegido de Chamberlain e um caçador de tesouros que, após encontrar um galeão de 300 anos, teve um acesso de benevolência e, em vez de tomar tudo para si, resolveu criar trilhas para outros mergulhadores vislumbrarem essas riquezas submarinas. O terceiro explorador era "Doc" E'Lan Vital, cujo grande objetivo profissional era descobrir uma fonte da juventude, mas que cedeu à atmosfera relaxante daquele paraíso, desistiu de sua busca e simplesmente abriu uma clínica.

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Por fim, o capitão Morton, traumatizado pela tempestade, decidiu que não navegaria mais nessa vida. Em vez disso, ia construir casas para sua família e os novos moradores da ilha, que, por causa deles, passou a ser chamada de Castaway Cay (ou "cayo dos náufragos"). "Cayo", por sua vez, é um termo espanhol de origem taína para ilhotas com baixa elevação. 

Fim da história. Fofa, né? Pudera, é obra da Disney. 

Conduzida na maré tranquila, aconchegante e familiar dos contos da Casa do Mickey, a narrativa embala a experiência que a Disney vende nesse pedaço das Bahamas. Uma ilha convertida em resort, dedicada exclusivamente aos turistas a bordo de um navio da Disney Cruise Line, companhia de cruzeiros do grupo. 

Mapa de Castaway Cay que acompanha a história da ilha. Fictícia e divertida. (divulgação)

Bolar historinhas para as suas atrações é algo corriqueiro na Disney, então, com essa espécie de Disney World fincada no Caribe, não seria diferente. Mas Castaway Cay tem um porém, pois ela não foi criada do nada, na prancheta dos "imageneers" (os "engenheiros criativos" da empresa). É uma ilha de verdade. Com uma história de verdade. 

(Crédito: Getty Images)

QUANDO CASTAWAY CAY ERA GORDA CAY

Agora, aos fatos. Em 1656, o galeão espanhol Nuestra Señora de las Maravillas bateu em águas rasas próximas a Gorda Cay, na região das Ilhas Ábaco, norte das Bahamas, que, à época, já eram ocupadas pelos ingleses. O navio se chocou com uma embarcação de sua esquadra, quebrou-se em dois e afundou nos recifes. No dia seguinte, só 56 dos 700 tripulantes estavam vivos.

A Espanha passou três anos resgatando o que pôde dos tesouros do galeão, que transportava ouro e prata de suas colônias americanas. Acredita-se que um quarto do carregamento tenha sido levado para a Europa. O resto ficou no fundo do mar. 

Passaram-se três séculos de quietude até que, em 1947, uma tempestade rearranjou as praias locais e revelou segredos enterrados a um grupo de sortudos pescadores. A hipótese de antigo naufrágio correu e, em 1948, um mergulhador encontrou três barras de prata. Em 1949, dois empresários de Nassau, capital das Bahamas, alegaram ter descoberto outra barra no local, embora se dissesse que eles simplesmente a compraram de um pescador por US$ 50.

Em 1957, Alvin Tucker, um incorporador de imóveis e entusiasta da aviação, comprou uma área de 60 hectares em Gorda Cay. Fez uma casa e curtiu a paisagem daquela ilhota redonda (por isso o nome "Gorda", enquanto os outros cayos bahamenses são mais longilíneos). Esse empresário de Trinidad e Tobago só não imaginou que, ao construir uma pista de pouso, de 730 m, ela seria usada pelo tráfico internacional de drogas. Os produtos saíam da América do Sul de navio, chegavam à ilha e de lá eram transportados em avião até a Flórida. 

Na década de 1970, Tucker acabou vendendo a propriedade para advogados que representavam uma certa Leisure Club, empresa de fachada do traficante Frank Barber. Barber usou a ilha para transportar suas drogas, alugou a pista para outros traficantes e até traçou planos para construir um hotel no local.

O dinheiro fluía acima e abaixo da superfície. Em 1960, um explorador marinho chamado Robert Marx havia começado a pesquisar sobre o Maravillas em arquivos espanhóis. Doze anos depois, ele fundou uma companhia com o oceanógrafo Willard Bascom a fim localizar o naufrágio.

O que eles acharam daria para abrir um museu. "Duas âncoras, dois canhões de bronze com o brasão de armas do rei Filipe IV de Espanha, barras e placas de prata, 5 toneladas de barras de prata, 50 mil moedas de prata, discos de ouro, joias, centenas de esmeraldas brutas", segundo o livro The Peoples of the Caribbean: An Encyclopedia of Archaeology and Traditional Culture, de Nicholas J. Saunders.

A descoberta contribuiu enormemente para Marx construir sua reputação de grande explorador, além de ter atraído, nos anos seguintes, mais caçadores de tesouro à região, que localizaram outras tantas riquezas naufragadas. Para Saunders, um prolífico arqueólogo britânico, tratou-se de "um exemplo de descoberta de um naufrágio historicamente importante e a remoção de sua espetacular carga por uma sucessão de caçadores de tesouro profissionais em vez de arqueólogos marinhos. Enquanto uma grande riqueza e artefatos surpreendentes foram recuperados, as intrigas políticas e manobras entre companhias motivadas pelo lucro substituíram a investigação científica cuidadosa". 

Os caçadores de tesouro podiam ser acusados de gananciosos, mas eles não eram criminosos internacionais procurados. A antiga pista de pouso de Tucker conheceu a lei em 1977, quando a polícia chegou para a primeira apreensão de drogas na ilha. Cinco anos depois, Barber acabou na cadeia, acusado de estar em posse de 1,8 milhão de tabletes de quaalude, sedativo sintético e hipnótico, também conhecido sob as marcas Mandrax ou Mandrix, e que viveu seu auge de popularidade entre os anos 60 e 80, quando deixou de ser vendido nas farmácias americanas. 

A história não acabou para Barber, pois ele virou informante da DEA, agência de repressão às drogas dos Estados Unidos. Entregou outros traficantes e até mesmo seu próprio supervisor na DEA, que de hora para outra, muito que sorrateiro, parou de reportar certos carregamentos e passou ele mesmo a vender narcóticos.

A partir de então, nova fase para Gorda Cay. O roteiro de Narcos deu espaço para a comédia romântica. Já no ano seguinte, o da graça de 1983, equipes de filmagem aportaram para gravar Splash – Uma Sereia em Minha Vida. Mais importante do que saber que essa aclamada e ensolarada fantasia foi dirigida por Ron Howard, que 18 anos depois ganharia sua estatueta por Uma Mente Brilhante, é notar que Splash foi o primeiro título da Touchstone, estúdio que a Walt Disney Company criara para filmes mais adultos.

Treze anos após o sucesso de Tom Hanks e Daryl Hannah na praia de Gorda Cay, a Disney se apossou de vez da ilha. Na verdade, o governo das Bahamas – país em que o turismo é o principal motor da economia e aonde 75% dos turistas chegam a bordo de um navio – arrendou por 99 anos o território para a empresa.

Gorda Cay passaria por uma drástica transformação, algo que furacão nenhum poderia impor. Um caminhão de US$ 25 a 35 milhões instalou: "usina de 1,3 MW e sistema de distribuição elétrica, estações de tratamento de água de osmose reversa e sistema de distribuição de água, estação de tratamento de águas residuais e água cinzenta, incinerador, 420 mil  m3 de dragagem a 10 m, 365 m lineares de berço para navio com empilhamento em tubo Z com tampa de concreto moldada no local, berço RO-RO, marina de embarcações pequenas, construção de praia, 762 m de estrada com vedação por cavacos, 457 m de estrada de concreto estampado, construção de 25 edifícios temáticos para alimentos e bebidas, varejo, esportes aquáticos, correios, cabanas de massagem, casas de elenco etc., paisagismo, gráficos e sinalização." 

Tamanho investimento serviu, também, para que os navios atracassem no píer e não houvesse a necessidade de transportar os passageiros até a praia de tender, embarcação de apoio que cumpre esse papel. Foi a primeira ilha privada da indústria de cruzeiros a dispor de tal facilidade.

A ilha precisaria passar também por um processo de terraplanagem em sua história. Assim, Gorda Cay se tornaria, graças à varinha mágica de uma fada criativa, Castaway Cay.

Para os críticos da Disney e para os entusiasmados fãs de teorias conspiratórias sobre a empresa (dois grupos maiores do que a torcida de alguns times brasileiros…) Castaway Cay foi criada para soterrar a história real de uma ilha. Uma saga que envolve polêmicas caças ao tesouro de estrangeiros em um país caribenho e tráfico internacional de drogas não cairia bem para os cofres do Tio Patinhas. 

Nos navios e no material de divulgação dos cruzeiros, não há menção a Gorda, somente a Castaway e seus personagens fictícios. O que, em se tratando de Disney, é previsível, dada a predileção da companhia a criar esse tipo de imersão. 

Essa narrativa, somada à impossibilidade de se explorar as outras áreas da ilha além daquelas delimitadas pela Disney (o "parque" ocupa só 22 dos 400 hectares do território), à atmosfera artificialmente idílica e, diga-se, à beleza estonteante da paisagem moldam uma mistura peculiar de O Show de Truman com, bem, Splash. Ou, como Oskar Johansson descreveu no site de crítica arquitetônica The Avery Review: "um método de manter os passageiros a bordo. Aqui o navio não é apenas a embarcação, mas a ilha em si – em suma, um sistema total do qual não há saída".

Não que a historinha tenha muita popularidade. Tive a sortuda oportunidade de conhecer Castaway Cay e não vi ninguém dando bola para a "origem" da ilha e seus "fundadores". Todo mundo está mais preocupado em aproveitar seus muitos dólares investidos se divertindo na praia, nos quiosques, no mar delicioso.

Fica o questionamento. Uma história fictícia precisa necessariamente apagar a história real de um lugar? Ou, já que ela é abertamente vendida como ficção, mera diversão, não pode conviver com a história real? Enquanto a turma problematiza, eu vou fazer um drinque.

***

Este ano, o verão no Hemisfério Norte será bem diferente, com grandes restrições de circulação, atrações fechadas, festivais cancelados ou adiados. Pelo menos até o fim de julho, não haverá nenhum cruzeiro Disney singrando os mares. O que significa que, graças à pandemia, Castaway Cay terá uma temporada como nos tempos de Gorda Cay.

Os cerca de 60 habitantes-funcionários não receberão as costumeiras hordas de famílias. Em vez disso, o que chega à ilha é o espectro ameaçador do coronavírus, que já impôs quarentena e uso de máscaras nas Bahamas e promete trazer danos severos a uma economia que depende do turismo. Isso em um país já fragilizado por um furacão que causou enormes estragos menos de um ano atrás. Em Castaway Cay, nem a ficção escapa da natureza. 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.