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Sob nova direção: pub mais isolado da Grã-Bretanha quer novos clientes

Felipe van Deursen

21/02/2021 04h00

(Crédito: iStock)

57º02'N, 5º40'O
The Old Forge, Inverie
Highland, Escócia, Reino Unido

Na origem, "pub" não é uma palavra, mas uma abreviação. No caso, de "public house". Essas casas públicas servem como ponto de encontro, teoricamente, para homens, mulheres, adultos em geral, crianças e até animais. Isso diferencia a função social do pub daquela do bar ou da taverna – pelo menos nas Ilhas Britânicas.

Em um país com clima austero, o pub servia como aquele abraço seguro e quentinho. Em um país extremamente urbanizado, que tem quase o dobro de quilômetros de rodovias pavimentadas que o Brasil (mesmo sendo 35 vezes menor), qualquer respiro na natureza soa como um alívio selvagem. Em um país como o Reino Unido, um pub isolado do caos urbano é um sonho.

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Daí vem a mística do Old Forge, eleito pelo Guinness o pub mais remoto da Grã-Bretanha. Ele fica na vila de Inverie, na península Knoydart, cuja população mal e mal chega a cem pessoas (menos gente que em qualquer bar da Vila Madalena).

Não há nenhuma estrada conectando o local ao resto do país. Para se chegar lá, é preciso fazer uma viagem de balsa de 9,5 km a partir do pequeno porto de Mallaig ou então, caso queira ser recebido com pleno respeito, fazer uma trilha de dois a três dias cruzando rios e montanhas na Escócia.

Além do isolamento, o Old Forge fez fama também pelo que oferecia: música que nunca deixava o ambiente em noites em que o sol não deixava o céu, segundo o relato da revista americana Outside. Na verdade, a música podia durar, mas o sol, não. Tecnicamente, ele se põe, mas, ainda assim, devido à alta latitude, as noites de verão no norte da Escócia não chegam a escurecer para valer.

Em 1997, o belga Jean-Pierre Robinet foi pela primeira vez a Knoydart. Seu objetivo era caçar veados, mas ele se encantou com tudo no lugar, a ponto de, 15 anos depois, comprar o Old Forge. Como todos os frequentadores de boteco sabemos, nem sempre o "sob nova direção" é coisa boa.

(Crédito: iStock)

Robinet tratou de mudar o pub. Ex-gerente de um hotel cinco estrelas na Bélgica, ele não se encaixava muito no perfil dos frequentadores da casa. Pedia aos clientes que usassem o banheiro com decência, que fossem mais educados, que tomassem um banho de vez em quando.

Nessa nova fase, o dono do Old Forge focou na gastronomia e, para revolta da comunidade, passou a fechar o pub no inverno. Nos anos seguintes, uma série de notícias gerou publicidade negativa para Robinet. Houve relatos de busca policial por armas de caça sem licença, impostos não pagos e até depoimentos que clientes locais ou visitantes sujos estavam sendo expulsos do local. Eram justamente aqueles que terminavam a trilha e queriam a glória merecida no fundo do pint mas que, em vez de um pub simples e tradicional, encontravam um restaurante metido.

Robinet disse à Outside que era tudo perseguição pelo fato de ele ser estrangeiro e tentar mudar e modernizar as coisas por ali. Explicou que fechava o local no inverno porque, com menos público, ele aproveitava para voltar à Bélgica e ficar mais perto do pai, que sofrera um derrame.

(Crédito: iStock)

Apesar de ter seus motivos, ele não conquistou o povo da área. Em 2019, cansados dos rumos dados pelo novo Old Forge, um grupo de locais resolveu abrir o próprio bar, The Table. Na verdade, era apenas uma tábua para os convivas se apoiarem, que evoluiu para uma cabaninha de madeira, construída, mantida e custeada pela própria comunidade.

Segundo pessoas da vila, muitos andarilhos frequentes deixaram de visitar a região depois da compra do Old Forge. Inverie teria perdido seu coração, mas o Table o recuperaria. Para os forasteiros, o pub era o destino que completava uma jornada que cruzava a natureza selvagem e era concluída em uma grande invenção da humanidade, formada por mesas, bancada, canecas e cerveja.

(Crédito: iStock)

As Highlands são famosas por serem um canto de vida natural cercado por regiões urbanas ou rurais. Ainda assim, há estradas e cidades nas Terras Altas. Mas não em Knoydart, o que faz da península um lugar tão especial. A caminhada até o Old Forge significava também a experiência de lidar com uma das antigas funções do pub, a de acolher andarilhos, cavaleiros ou até mesmo pessoas perdidas, protegê-las do frio e oferecer um descanso e uma comida quente em tempos sem transporte mecanizado.

Talvez o Table recupere isso, mas daí a manter a mística será mais complicado. Não por ser um pub novo, mas pelo simples fato de existir. Agora, Old Forge e Table deixam de ser, qualquer um deles, o bar mais isolado do país, afinal eles têm a companhia um do outro, gostem os frequentadores ou não.

Inverie ganhou também, em 2018, uma cervejaria. Instalada em uma antiga capelinha branca de 1884, a Knoydart Brewery se autointitula "provavelmente a cervejaria mais remota da Grã-Bretanha". Marketing merecido, uma vez que o equipamento precisou ser transportado em uma antiga lancha de desembarque da Marinha Real e a cerveja só consegue chegar ao resto do país após enfrentar quase 10 km de mar revolto.

A vila é um amontoado de casinhas sobre colinas, cercada por montanhas poderosas que ondulam na névoa, descreve o jornal britânico The Independent. No século 19, Knoydart passou pelo processo de substituição da agricultura de subsistência pelas grandes propriedades. Lavradores deram lugar a ovelhas na paisagem, e a península passou de uma mão rica para a outra desde então.

(Crédito: iStock)

Em 1997, uma fundação foi criada para assumir o controle de Knoydart e devolvê-la à comunidade local, o que ocorreu dois anos depois. Mantida pelos habitantes e patrocinadas por britânicos de tudo que é lugar (inclusive doadores anônimos com possíveis conexões monárquicas), a fundação luta para manter a natureza intacta, ou o mais próximo possível disso.

Ao se isolar nas trilhas que serpenteiam a região, a poluição sonora, endêmica em todo o resto do país, é nula. Riachos, colinas, aves marinhas soam de forma diferente. Mesmo que o prêmio pessoal no pub não seja mais o mesmo, outras glórias permanecem. Como a sensação de que você está, pela primeira vez, ouvindo o silêncio.

 

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.