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Terra à vista!

Na guerra entre Canadá e Dinamarca, não se trocam tiros, mas bebidas

Felipe van Deursen

28/03/2021 04h00

Ilha Hans: não parece, mas ela é disputada… (foto: wikicommons)

80º49'N, 66º27'O
Ilha Hans
Canal Kennedy, Groenlândia (território autônomo da Dinamarca)/Canadá

Hans é uma ilha desabitada e com a riqueza natural e a biodiversidade de um pedaço de isopor. Um nada. Fica no meio de um estreito, longe de qualquer lugar com seres humanos. Em um raio de 350 quilômetros, há somente dois vilarejos, cujas populações somadas são 130 pessoas (metade de um vagão de metrô de São Paulo).

Ainda assim, a ilha é motivo de desavenças, há décadas, entre Canadá e Dinamarca, duas das nações mais desenvolvidas do mundo. Certo, desenvolvimento não é sinônimo de pacifismo, tanto que os dinamarqueses participaram da Guerra do Golfo (1990-91), conflito em que canadenses tiveram papel importante. Os dois países também estiveram lado a lado na operação da Otan contra piratas somalis, na década passada. Na verdade, se canadenses têm fama de antibelicistas é porque quem espalhou isso foram os americanos, pois só para eles o Canadá, um país que esteve em pelo menos 15 guerras e conflitos armados menores desde 1900, é um país pacífico.

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Agora, democracias ricas se enfrentarem é outra história, algo que não acontece desde o século 19 (ou jamais rolou, porque esse é um debate acadêmico enorme, que envolve definir o que é democracia, o que é guerra…). Em todo caso, é seguro cravar que é muito raro um país rico e democrático declarar guerra a outro.

Só que, no papel, esse é o caso da "Guerra do Uísque", entre Canadá e Dinamarca. Mas, na prática, vejamos que diacho de guerra ridícula, porém divertida, é essa.

Hans jamais teve uma população permanente até onde se sabe. Inuítes, os povos esquimós do norte da América do Norte, a usam para caçar desde pelo menos o século 14 – mas apenas os inuítes da Groenlândia, segundo o Nunatsiaq News, um jornal local. Os do Canadá, não.

Os dinamarqueses iniciaram a colonização da Groenlândia no século 18, e no 19 os canadenses, após conquistarem a independência do Reino Unido, começaram a explorar o Ártico. Aos poucos os rivais se aproximavam da ilhota.

Hans fica no meio de um canal entre o noroeste da Groenlândia e a ilha canadense de Ellesmere, a menos de 12 milhas náuticas (22 quilômetros) de ambas as costas, o que a configuraria, teoricamente, parte do território nacional dos dois países, segundo a convenção das Nações Unidas. Mas, sem graça que só ela, ninguém deu muita bola durante um bom tempo para o assunto. Só na década de 1970 que as duas parte concordaram em não ocupá-la. Deixaram ela lá quieta. Até 1983.

Hans era aquela pracinha largada do bairro, sem banco, sem árvore, sem vida. Ninguém usava, aí então um vizinho resolveu transformá-la em uma extensão do seu quintal. Só que nada como se sentir passado para trás para soltar os cachorros por algo até então desprezado, não é mesmo? Então o outro vizinho saiu berrando.

Foi mais ou menos o que aconteceu. Em 1983, a imprensa groenlandesa noticiou que uma empresa petrolífera canadense, a Dome, estava fazendo pesquisas na ilha. Possivelmente a Dome nem sabia do que se tratava, dada a irrelevância de Hans, mas a história chegou à Dinamarca, acirrou ânimos e motivou o ministro dinamarquês para a Groenlândia, Tom Høyem, a subir em um helicóptero.

O ministro visitou a ilha e fincou em seu solo árido a Dannebrog, a bandeira nacional em uso contínuo mais antiga do mundo. Ao pé da flâmula alvirrubra, deixou uma garrafa de schnapps dinamarquês. Segundo algumas versões da história, ele estava respondendo os canadenses, que haviam hasteado sua igualmente alvirrubra bandeira e deixado uma garrafa de seu uísque nacional como forma de boas-vindas a hipotéticos visitantes.

Militares dinamarqueses em Hans, em 2002. Foto: Per Starklint (wikicommons)

Nos anos seguintes, o conflito se resumiu a esse troca-troca de bandeiras e garrafas. De um lado, o snaps (na grafia em dinamarquês), termo usado para se referir à akvavit, a aguardente nacional, um destilado de grãos ou batatas com adição de ervas ou temperos. Do outro, o uísque canadense, que em geral é feito de milho e centeio e é mais leve e versátil que o americano (Crown Royal e Canadian Club são as marcas mais famosas).

Quando tropas militares passavam pela ilha, renovavam o estoque e deixavam os seus presentinhos. Não se sabe ao certo o que era feito com as bebidas retiradas, mas o destino do snaps deixado pelo ministro dinamarquês dá uma pista, um tanto óbvia: o piloto do helicóptero que levou o político retornou à ilha, em uma outra viagem, e pegou a garrafa para si.

Em 2002, a situação esquentou um pouco com a publicação de um artigo no jornal The Globe and Mail, o principal do Canadá, intitulado "O retorno dos vikings" (pelo título dá para imaginar o teor do texto). Depois, o ministro da Defesa canadense, Bill Graham, visitou a ilha em 2005, o que foi visto como uma invasão pelos dinamarqueses.

Alguns canadenses argumentaram que Hans pertencia a eles por herança dos britânicos, que a "descobriram". Groenlandeses lembraram que, no caso, a façanha pertence a um americano, Charles Francis Hall, que em 1871 tentava alcançar o Polo Norte de navio. Ele batizou a ilha em homenagem a um membro da tripulação, o groenlandês Hans Hendrik.

O governo da Dinamarca pediu uma explicação, mas sem perder o bom humor, como o próprio advogado-chefe do ministério das relações exteriores mostrou: "consideramos a ilha Hans parte do território dinamarquês, então vamos fazer uma reclamação sobre a visita não anunciada do ministro canadense. Quando militares dinamarqueses vão lá, eles deixam uma garrafa de snaps. Quando forças canadenses vão, deixam uma garrafa de Canadian Club e uma placa dizendo 'bem-vindo ao Canadá'".

Em 2012, cogitou-se uma proposta de dividir a ilha entre os dois países, mas até hoje a situação segue inconclusiva. Hans ganhou algumas estações de pesquisa e há quem especule que, no futuro, com o aumento do derretimento do gelo no Ártico e a consequente intensificação geopolítica na região, essa rota ganhe mais importância. Por ora, seguimos no aguardo da inauguração do bar do fim do mundo.

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.