PUBLICIDADE
Topo

Terra à vista!

Tempestades mortais de areia e desmatamento ameaçam templo na Mongólia

Conteúdo exclusivo para assinantes

Felipe van Deursen

11/07/2021 04h00

Mosteiro fica isolado no Deserto de Gobi. Foto: (Marcin Konsek/wikicommons)

44º35'N, 110º16'L
Mosteiro Khamariin Khiid
Khatanbulag, Dornogovi, Mongólia

Dulduityn Danzan Ravjaa foi um escritor, pintor, compositor, médico e intelectual mongol do século 19. Proeminente liderança budista, quinta encarnação do noyon (título da escola Nyingma do budismo tibetano na Mongólia), ele dedicou a vida aos estudos religiosos, mas é famoso no país também pela poesia, filosofia, astrologia e tratados médicos.

Segundo Michael Kohn no livro Lama of the Gobi ("Lama do Gobi", sem edição brasileira), Danzan Ravjaa é o santo mais querido da Mongólia. O subtítulo do livro é daqueles golaços de editor que nos fazem entender o tamanho do personagem e querer ler mais sobre ele imediatamente: "como um monge místico mongol difundiu o budismo tibetano no deserto mais cruel do mundo".

Veja também

Entre os grandes feitos de Danzan Ravjaa estava a construção de templos, que serviam também como centros culturais para comunidades mais que isoladas. Em um ponto do deserto onde ele dizia ser o centro da energia espiritual do planeta, o monge liderou as obras do mosteiro Khamariin Khiid.

(Crédito: Reprodução/Instagram@blickfang.at)

Inaugurado em 1820, o complexo teria abrigado até 500 monges. Suas instalações, que podiam ser usadas por homens e mulheres da região, tinha escola, teatro, biblioteca, museu e até uma sala de recital de poesia.

Em 1911, 55 anos após a morte do lama do Gobi, a então chamada Mongólia Exterior declarou independência da China, algo que só foi concretizado dez anos depois, com apoio dos russos. Em 1924, a Mongólia devolveu a ajuda e virou a segunda nação oficialmente comunista do mundo, apenas dois anos após a criação da União Soviética.

Na década seguinte, replicando o terror stalinista, o governo assassinou milhares de pessoas em expurgos. Algo entre 20 mil e 35 mil mongóis foram eliminados. A perseguição religiosa culminou na execução ou na laicização forçada de lamas e na destruição de templos – entre eles, Khamariin Khiid, posto abaixo em 1937.

(Crédito: Reprodução/Instagram@bvgvnchvlvv)

Em 1990, no fim do período comunista, o santuário pôde ser reconstruído. Bem mais humilde, ele chama atenção hoje pela localização (a cidade mais próxima fica a 42 km, quase uma hora de carro pelo deserto) e pela energia que os fiéis dizem sentir no local.

Cento e oito estupas circulam o complexo. Ao norte, os monges meditam em cavernas por 108 dias contínuos (o número é sagrado no budismo). Descalços, os fiéis oferecem arroz, painço, leite e vodca nos monumentos.

A TEMPESTADE

(Crédito: Reprodução/Instagram/@maika0901)

Este ano, o mosteiro se viu ameaçado. Podia ter desaparecido do mapa – de novo. Naufragados em nosso próprio combo sinistro de crise sanitária, ecológica, hídrica, econômica e política, nós temos tido pouco acesso, e dado pouca atenção, a outras calamidades que têm acontecido no mundo.

Em março, o pastor Nyamsambuu Myadagmaa conduzia suas ovelhas e cabras na província de Dornogovi, não muito longe do mosteiro, quando o céu começou a ficar encoberto pela poeira do deserto. Assustado, mas prudente, porque o fenômeno é conhecido na região, ele se refugiou com os animais em um celeiro. Só não esperava que a tempestade durasse tanto.

O céu custou 20 horas para se acalmar. Foi a pior tempestade em uma década. O teto do celeiro cedeu, matando os animais. Aqueles deixados fora acabaram literalmente enterrados vivos pela areia. Os que sobreviveram ficaram cegos por causa do atrito rasgante e ininterrupto da tempestade. Myadagmaaa sobreviveu, mas dez pessoas e 1,6 milhão de animais morreram na tormenta.

A fronteira com a China sofreu. No norte do país vizinho, turistas se viram isolados pelo vento forte, a poluição atmosférica ficou vinte vezes pior do que o limite recomendado. Equipes de resgate não conseguiam se mover porque a escuridão tomou tudo, mesmo durante o dia.

Entre março e maio, oito tempestades de areia atingiram Mongólia e China, resultado da combinação de mudanças climáticas, temperaturas extremas e devastação ambiental. Choveu pouco na Mongólia no último ano, nevou menos ainda e a secura criou montanhas de areia solta para o vento arrastar.

A desertificação no norte do país cresce ano a ano. A temperatura média subiu mais de dois graus em 75 anos (o triplo da média global). Para piorar, a mineração de ouro, carvão e cobre é o motor da economia. São atividades que têm mais ou menos o mesmo impacto na natureza do que a chegada de Tamerlão a Bagdá.

Deixar a "boiada" passar é outro problema sério. Os rebanhos mongóis quase triplicaram de tamanho em 30 anos. O país é o segundo maior produtor mundial de caxemira, atrás da China, e a cabra-da-caxemira, que fornece essa fibra tão valorizada na indústria da moda, é um animal que devora duas vezes mais pastos que as ovelhas, segundo uma reportagem da rádio pública americana (NPR). Haja larica.

(Crédito: Reprodução/Instagram@ggn_zayka)

Tudo isso contribui para o agravamento das tempestades anuais de areia. Desde 1978, a China tem investido em contê-las. Plantou estimadas 66 bilhões de árvores na fronteira do Gobi, a fim de barrar a desertificação no sul da Mongólia e segurar as ventanias. Mas este ano elas foram tão fortes que a areia simplesmente passou por cima da chamada "muralha verde" e chegou a Pequim, que ganhou ares apocalípticos conforme o céu adquiria tons de uma morte amarela e bege.

Em Dornogovi e em outras províncias mongóis, os ventos atingiram uma velocidade de 100 km/h, o que qualifica a tempestade como um fenômeno catastrófico, segundo as medidas estipuladas pelo órgão governamental de administração de crises. Já na província vizinha de Dundgovi, o vento chegou a 144 km/h.

Mas Khamariin Khiid aguentou o tranco. O centro da energia espiritual da Terra segue firme.

Índice de posts do Terra à Vista

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.