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Com cada vez menos monges, Alemanha busca vida nova para seus mosteiros

Felipe van Deursen

15/02/2020 04h00

Mosteiro Benediktbeuren no outono, Alemanha (Crédito: Getty Images)

48º05'N, 8º58'L
Beuron
Baden-Württemberg, Alemanha

O que será dos mosteiros quando não houver mais nenhum monge? Por mais que a fé possa revigorar a crença de que tal dia jamais chegará, a demografia bate à porta e já exige algumas atitudes.

Existem cada vez menos homens e mulheres que entregam suas vidas inteiras à religião, e os que ainda vivem estão cada vez mais velhos, cada vez em menor número, precisando administrar, com cada vez menos recursos, construções muitas vezes centenárias e que são patrimônio histórico e cultural de comunidades inteiras. Sinais dos tempos.

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O declínio do catolicismo na Europa é nítido até em sua grande potência. Na Itália, que até outro dia era virtualmente 100% católica, o número caiu para 83%. Na Alemanha, historicamente mais dividida desde que Lutero escreveu suas 95 teses há 502 anos, a queda é mais aguda. Em 1960, havia cerca de 110 mil freiras e monges no país. Em 2000, eram uns 38 mil. Hoje, eles não chegam a 18 mil.

Mosteiro de Maulbronn, Alemanha (Crédito: Getty Images)

"A sociedade alemã está se distanciando da espiritualidade, da religião e, especialmente, da Igreja. Isso é sentido particularmente entre as ordens religiosas", diz um artigo da revista alemã Der Spiegel. "As ordens estão morrendo. Em todo lugar, mosteiros e conventos estão desaparecendo."

Para não sumirem, muitas estão diversificando os negócios, digamos assim. Tudo para evitar uma cena cada vez mais comum: andares inteiros abandonados e antigos aposentos nos claustros transformados em depósito, já que seus habitantes morreram e ninguém ocupou seus lugares.

Na Arquiabadia de Beuron, casa dos beneditinos no cênico Vale do Alto Danúbio, no sudoeste da Alemanha, houve um tempo em que 300 monges ali viviam. Isso há 90 anos. Hoje, são menos de 40. A tendência é só diminuir, pois a idade média deles é de 68 anos.

Igreja do monastério em Beuron (Crédito: Getty Images)

Por isso, algumas congregações mudaram as regras. Mulheres e homens de qualquer idade podem viver, orar, trabalhar e aprender em um mosteiro em períodos voluntários de três a 12 meses. Sem nenhuma exigência de compromisso com a Igreja.

Ou seja, viva como uma freira por alguns meses e depois volte para sua vida anterior. Pode até render um livro de autoajuda.

Mas a medida não tem feito lá tanto sucesso. Poucos candidatos se apresentaram para uma temporada monástica. Na Áustria, onde a prática existe desde 2016, 30 mulheres e homens participaram. Média de menos de uma pessoa por mês, o que podemos chamar, sem medo, de um baita fracasso.

Isso muda de figura quando os mosteiros lançam a carta óbvia e certeira do turismo. Afinal, hospedar-se nesses prédios bem localizados e arquitetonicamente relevantes é uma experiência e tanto. Fora que são espaços de contemplação, imunes às poluições estressantes e barulhentas do dia a dia. Têm seu apelo.

Arquiabadia de Beuron (foto: wikicommons)

Em Beuron, o público cativo é formado por viajantes mais velhos e, muitas vezes, solitários. Eles encaram a rotina monástica a partir do primeiro badalar dos sinos, às 4h40. Primeiro os cânticos na igreja e, em seguida, ora et labora. A vida beneditina, como resume a famosa máxima de São Bento, é isto: "ora e trabalha". E os turistas devem segui-la à risca.

Todo mundo tem funções predeterminadas. Em Beuron, há os monges que tocam a divulgação e comercialização de obras de arte, os que cultivam e mantêm o grande jardim, os que cuidam das colmeias e os que administram a destilaria de schnapps, a popular aguardente alemã.

Esses são os trabalhos diários que ainda têm quem o faça. Em 1996, a arquiabadia precisou arrendar seus 84 hectares de terra, pois não tinha mais como mantê-los. O açougue e os serviços de alfaiate também fecharam as portas.

A diminuição do número de monges não afeta apenas o trabalho deles, mas de toda a comunidade. A pequena vila de 120 pessoas já teve sete restaurantes, mas hoje só tem dois. Os milhares de peregrinos que iam a Beuren ver a pietà do século 15 já não vão mais.

Restam os novos turistas, que ficam três dias, encontram a paz interior (ou não) e depois voltam para casa. Talvez essa não seja a única solução, mas poderá ajudar muitos mosteiros a evitar caírem nas garras da especulação imobiliária. Alguns já podem ser encontrados em sites de imóveis com aquelas típicas descrições eufemísticas, tipo "propriedade com personalidade". Se estiver interessado (em comprar ou em ler as descrições), vale checar estes antigos mosteiros italianos à venda.

Corretores especializados vendem os mosteiros por milhões de euros. Os históricos prédios viram condomínios de luxo, hotéis butique e espaços compartilhados de trabalho ("coworking", em farialimeriano).

Em 2010, uma abadia beneditina localizada a 70 km de Beuron fechou as portas. Sua nova vida teve um relance bom-samaritano digno da anterior, ao abrigar refugiados que chegavam à Alemanha. Depois, seguiu o destino menos nobre dos outros mosteiros fechados e virou um templo pagão de culto ao corpo: uma academia.

(Recado aos mosteiros brasileiros: não vacilem, senão a Smart Fit pega vocês.)

Além de olhar para o turismo com mais carinho, alguns encaram a realidade de forma pragmática. Em Trier, no estado vizinho da Renânia-Palatinado, fica o convento das Irmãs de São José, um prédio no centro histórico, junto ao antigo portão romano da cidade.

A ordem já teve 168 freiras de toda a Europa, que cuidavam especialmente de mulheres em dificuldade econômica. Elas davam aulas, colaboravam nos afazeres domésticos de mães com filhos pequenos, trabalhavam na prisão. Em dias em que se recolhiam para o convento, elas ofereciam os 53 quartos de hóspedes à comunidade, para quem quisesse se juntar em exercícios espirituais.

Só que as 168 freiras hoje são só 13. Ficou inviável viver no grande convento, então elas decidiram vendê-lo e usar o dinheiro para seguir sua obra. Criaram uma fundação, que continuará amparando mulheres em situação de risco mesmo depois que não houver nenhuma freira na cidade.

Histórias de mosteiros que se desdobram em novas atividades econômicas para sobreviver existem em diversos países. Hospedar-se em convento não é nenhuma novidade, de Minas Gerais ao Japão. Tem até site de hospedagem específico para você procurar um mosteiro para dormir.

Beuron em ilustração de 1787 (wikicommons)

Mas é sempre bacana ver iniciativas como a de Beuron, antigo mosteiro agostiniano erguido no século 11 e transformado em arquiabadia beneditina em 1863.

Melhor que virar condomínio.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.